Gente, este blog aqui é feito para vocês. Então, só há um jeito de
eu saber o que vocês estão pensando dele: comentários! Se ninguém comentar nada, não tem graça fazer um blog!
Trata-se de um exercício, uma atividade que exige esforço, mesmo
sendo algo extremamente divertido, instrutivo e prazeroso. Mesmo assim, qual a
função do que a gente pesquisa e escreve aqui, se não houver uma resposta dos
leitores?
Portanto, não façam cerimônia. Cliquem no ícone “Comentários” e
dêem sua opinião. Falem o que acharam das postagens, coloquem links de coisas
legais, façam perguntas... Podem até meter o pau em mim! Mas comentem,
comentem, comentem...
Quando
o SBT anunciou que iria exibir o
seriado I Love Lucy, eu fiquei feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz
porque sou fã de Lucille Ball desde
moleca, e porque essa geração mais nova que está aí, exposta a tanto lixo, ia
ter a chance de conhecer o trabalho desta grande atriz e diretora. E triste
porque eu já previa o preconceito do público contra uma série que, além de
antiga, era em preto e branco.
Realmente,
eu estava certa. I Love Lucy não durou duas semanas no horário em que foi
exibida (1 hora da tarde), e logo foi parar nas madrugadas do SBT, horário
tradicional para quem no Brasil curte cinema Old School. Eu tenho algumas
explicações para este, digamos, fenômeno.
Primeiro, I Love Lucy era o seriado certo sendo exibido
no horário errado. Havia, sim, gente que queria assistir I Love Lucy, mas este
público não está em casa à uma da tarde – é um público de gente com mais de 40
anos, que só tem tempo de ver TV a partir das 8 da noite, horário em que o SBT
está exibindo sua maior mina de ouro: as novelas infantis e as mexicanas e
argentinas (acho ridículo se referir às novelas importadas do México e da
Argentina como “novelas latinas”. E o Brasil, não é latino também? Novela da
Globo é o quê? Polonesa? Sueca?).
Segundo,
para que I Love Lucy fosse exibida, o SBT tirou do ar vários seriados de
grande audiência no horário, que, aliás, são seriados que têm fãs xiitas (com
todo respeito, é claro!). Logo no primeiro dia de exibição do clássico de
Lucille Ball, as redes sociais foram inundadas por uma enxurrada de críticas
negativas feitas por gente que nem sequer se deu ao trabalho de ligar a TV
naquele horário para assistir à “nova” série, mas desligou a TV em protesto
(!!!) e ficou xingando a emissora na Internet. Não que eu ache que esses
seriados deviam ter saído do ar – pelo contrário! Tirá-los da grade, aliás, foi
outro erro. Principalmente (e exatamente) porque eles têm fãs muito fiéis e,
portanto, são fontes de lucro e audiência.
Terceiro,
e o mais importante na minha humilde opinião: o público brasileiro de hoje tem
um grande preconceito contra filmes em preto e branco. Eu diria que o
preconceito é contra filmes antigos em geral, mas se eles forem em preto e
branco, o preconceito triplica. E a culpa é da própria televisão nacional, que
tirou da sua grade qualquer filme feito antes de 2000. Existe a exceção da TV
Cultura, mas a audiência infelizmente é muito pequena. No Brasil, um filme de
um ano atrás é considerado “velho”. Imagine uma série que tem 50, 60 anos.
A
primeira chamada da série também foi um erro, na minha opinião: “a comédia que
os americanos deram boas risadas!”. E DAÍ que os americanos deram risada?!! Não
significa que os brasileiros vão dar risada também!!! Esse negócio de “se é
americano, é legal” pra mim é coisa da década de 80. Não sou uma burra
antiamericana (sim, porque pra mim antiamericanismo é burrice), mas acho que
esse tipo de coisa já era.
Agora
vou contar para vocês como eu conheci o trabalho da grande Lucille Ball. Por
incrível que pareça, foi através do SBT mesmo. Logo que a emissora do Silvio Santos entrou no ar, um dos
destaques da grade era o seriado Show da Lucy, que Lucille fez após o
fim de I Love Lucy, quando ela virou diretora e mudou totalmente o seu
estilo (aí a história é muito comprida e eu precisaria de outro post para
contá-la pra vocês). A série, maravilhosa também, era exibida em horário nobre
(oito e meia da noite!!!), enquanto a Globo passava suas novelas. Na época meus
pais (graças a Deus!) ainda não me deixavam ver novela, e minha mãe, que era fã
da Lucille Ball, colocava no seriado pra assistir. Resultado: virei fã da Lucy.
Aliás, Lucille Ball foi a primeira atriz cujo trabalho eu me lembro de ter
admirado na vida. Sua expressão facial, vocal e corporal, seu talento como
dançarina e cantora, e sua capacidade de fazer em cena o que quer que o roteiro
exigisse, chegando até mesmo a improvisar, me encantaram. E me encantam até
hoje.
Anos
depois, revendo alguns episódios legendados do Show da Lucy (nunca
gostei da tradução), fiquei de boca aberta com o dom que Lucille tinha para
imitar vozes e sotaques (coisa que eu sempre valorizei, até porque minha
brincadeira favorita na infância era teatrinho). Eu também amava quando ela e a
colega de cena, Vivian Vance, se
disfarçavam e interpretavam, irreconhecíveis, outros personagens – sim, é “outros”
mesmo, porque tinha homem, mulher e até animal. E convenciam!
Há
anos eu ouço gente da minha idade comentando que adoraria rever Show
da Lucy. Já li dezenas de comentários de fãs dizendo que o SBT devia
voltar a exibir essa série. Aliás, na minha opinião, o SBT devia ter exibido primeiro o Show da Lucy, e depois, se desse certo, colocar I Love Lucy no ar. Por um motivo
muito simples: Show da Lucy era a cores.
A
coisa teria tido mais chance de dar certo dessa forma. Às vezes a gente ganha
um presente e, por ignorância, não o aproveita e joga fora. Foi o que aconteceu
com as pessoas que tiveram preconceito contra I Love Lucy. No caso
delas, eu diria que elas jogaram esse presentão fora sem sequer ter aberto o pacote.
Acho triste esse tipo de coisa. E mais triste ainda foram os jornalistas que
ridicularizaram o fato de uma série antiga em preto e branco estar sendo
exibida em pleno século 21. Boa parte desses jornalistas e (de)formadores de
opinião é gente jovem que nunca tinha visto um único episódio de I
Love Lucy. Gente que acha que o mundo começou em 1980.
Isso
é realmente uma tristeza, porque contribui para o emburrecimento do nosso
público, que vai se tornando mero “seguidor de tendências” e desenvolvendo
preconceitos idiotas. Para conseguir saborear a experiência de ver um filme de
outra época, é preciso que você jogue todos os seus preconceitos na lata do
lixo. Preconceitos de época, de estética, de estilo, de tudo. Aí depende de
como você encara o cinema, do que cinema significa pra você. Se para você cinema
é apenas uma diversão momentânea e/ou uma maneira de estar por dentro da moda,
pode esquecer. Mas se para você cinema é uma experiência, seja bem-vindo ao Poltrona R. Esse blog aqui foi feito
para você. Mi casa, su casa.
Quem tem mais de 40 anos e, portanto, cresceu
assistindo aos desenhos produzidos pela Hanna
Barbera nas décadas de 1960 e 1970 e lançados por aqui na virada dos anos
70 para os 80 com ares de novidade, com certeza se lembra. Devido ao sucesso de
séries criadas pela concorrência e que tinham como personagens bandas reais,
como o desenho animado dos Jackson Five
(feito em parceria da gravadora Motown
com a produtora Rankin-Bass e
exibida entre 1971 e 1972), o seriado The Monkees (que o canal de TV NBC
produziu e levou ao ar entre 1966 e 1968), a animação A Turma do Archie (criação da emissora CBS que durou de 1968 a
1969, e revelou a banda The Archies)
e, acreditem, até um desenho animado dos Beatles
(sim, isso existiu e deu origem à onda, com 39 episódios que o canal americano
ABC levou ao ar entre 1965 e 1969), a dupla de cartunistas William Hanna & Joseph Barbera resolveu faturar com a
tendência. E lançou, uma atrás da outra, séries animadas estreladas por grupos
de personagens que, além de viver aventuras e desvendar mistérios, também
tinham uma banda de música nas horas vagas.
Deu
certo. Criações clássicas da dupla surgiram graças a essa fórmula: Josie
& As Gatinhas, Tutubarão, Charlie Chan & Família,
Gatolândia
e claro, o épico, inesquecível e insuperável desenho mais famoso que seguia esta receita: Os Impossíveis.
Assim
como os desenhos da concorrência, as adoráveis pirações roqueiras inventadas
pela Hanna Barbera tinham como alvo os públicos teen e pré-adolescente, e não
só a criançada. Na verdade eram todas variações sobre o mesmo tema: grupo de jovens
(ou família com filhos adolescentes) que forma uma banda musical e, nas horas
vagas, dedica-se a resolver mistérios (ou seria o contrário?). A produção, por
ser praticamente industrial, era o básico do básico: cenários com poucos
detalhes (pelo menos em comparação ao que H&B faziam nos tempos da primeira
versão de Tom e Jerry), personagens cuja expressão facial se limitava à
boca mexendo e/ou os olhos piscando, e aqueles mesmos efeitos sonoros
impagáveis que já renderam até um álbum só com eles (foto abaixo) - infelizmente, não lançado no Brasil #PraVariar. Alguns desses desenhos
tinham até claque gravada, o que só torna tudo mais hilário e bizarro ainda.
Havia,
porém, muito mais aspectos positivos do que negativos nos desenhos do hit parade de William Hanna & Joseph
Barbera: personagens carismáticos, enredos que prendiam a atenção, aquele
visual bem sessentinha e setentinha que era um barato, e uma trilha sonora que,
vamos combinar, era bem melhor do que
muita coisa que toca no rádio hoje.
Vamos
então dar uma viajada e relembrar os personagens H&B que fizeram o deleite
dos nossos olhos e ouvidos na infância:
OS IMPOSSÍVEIS (1966)
Foi o primeiro projeto da Hanna
Barbera dentro do conceito “desenho de banda”. Baseava-se, claro, num grupo
musical chamado Os Impossíveis que, na verdade, era composto por três
super-heróis disfarçados. Os vilões que eles combatiam eram as figuras mais xaropes
do universo, como o Perigoso Boneco de Papel. Na segunda temporada da série
(que infelizmente durou apenas um ano), entrou em cena o personagem
Frankenstein Junior.
O som e o visual do grupo se
pareciam descaradamente com os dos Beatles (de propósito, é óbvio!), e isso foi
um dos motivos do sucesso estrondoso do desenho mundo afora – inclusive no
Brasil. William Hanna e Joseph Barbera perceberam, então, que ali havia uma
mina de ouro.
A TURMA DA GATOLÂNDIA (1969-1971)
Programa de animação com um
formato curioso: cada episódio durava uma hora e era na verdade um pacote
dividido em quatro segmentos - “A Turma da Gatolândia”, “Volta Ao Mundo Em 79
Dias”, “Juca Bala & Zé Bolha” e “É o Lobo!” – sem nada de live action entre eles. Os personagens
eram uma banda de gatos músicos que tocavam (adivinhe!) rock and roll. Mas o
que eu acho sensacional é a estética do desenho, com imagens em caleidoscópio,
cores berrantes e muita psicodelia, tudo com a cara da época em que ele foi
feito. Praticamente uma “acid trip” para crianças. Very louco, muito crazy.
JOSIE & AS GATINHAS
(1970-1974)
Lançado para competir com o desenho do grupo The
Archies, e também para atrair um público feminino maior, este clássico cultuado
pelas meninas da época trazia um grupo de garotas que vestiam trajes com
estampa animal e cantavam e tocavam rock. Elas viajavam pelo mundo fazendo
turnês, e entre um show e outro se metiam em estranhas aventuras, enfrentando
aqueles vilões inacreditáveis que só a Hanna Barbera sabia criar. Foi o
primeiro desenho a apresentar uma personagem afro-descendente fixa em seu
elenco de personagens – a esperta Valerie, que tocava pandeiro no grupo. Assim
como havia ocorrido com The Archies, o desenho originou uma banda na vida real,
com cantoras escolhidas pelos produtores. Quanto à trilha sonora, sinceramente,
elas deixavam asSpice Girls no
chinelo.
AS AVENTURAS DE CHARLIE CHAN
(1972)
Baseado nas histórias do detetive
chinês Charlie Chan (aquele que tinha 128 filhos). O dublador Keye Luke foi o único ator realmente de
origem chinesa a interpretar o personagem, que já havia sido vivido também no
cinema. Outra curiosidade: a voz do personagem Stanley cantando era feita por
ninguém menos do que Ron Dante, o
vocalista (e faz-tudo) da banda The Archies. A música-tema instrumental de
abertura, aliás, era uma das mais grudentas da história do desenho animado.
Aliás, sabem quem era o produtor da trilha? Don Kirschner, o mesmo do The Monkees.
BUTCH CASSIDY & THE SUNDANCE KIDS (1973)
Mais um desenho rock and roll da
H&B, cujo título aproveitava o sucesso do filme de 1969 (que na verdade
nada tinha a ver com o desenho) Butch
Cassidy & Sundance Kid. A história merecia nota zero no quesito
originalidade: grupo de jovens que levavam uma vida dupla como combatentes do
crime e banda de música nas horas vagas (ou o contrário, se você preferir). O
grande barato da série era o fato de o grupo ter um cachorro chamado Elvis, e
um supercomputador (coisa avançada pra época). Na trilha sonora, pop-chiclete
anos 70 no ‘úrtimo’.
A FAMÍLIA DÓ-RÉ-MI (1974-1977)
A história sobre como
surgiu este desenho é saborosa. Em 1974
(o ano em que eu nasci!), a Hanna Barbera teve a idéia de criar uma atualização
do adorado clássico The Jetsons, com o garoto Elroy sendo mostrado como um
adolescente e sua irmã Judy trabalhando como repórter. A CBS, emissora que
exibia o desenho, recusou isso. A saída foi adaptar os personagens da famosa série
live action A Família Dó-Ré-Mi, só que em uma versão futurista, com a família
vivendo no ano de 2200 (!!!). Na série apareceram os novos personagens Veenie
(amigo venusiano de Keith) e Marion (amiga marciana de Laurie). Danny tinha um cão-robô chamado Orbit.
O único “buraco” no
roteiro foi a falta de explicação sobre como a família foi parar num ano tão
distante no futuro, de repente. Mas isso são detalhes
sem muita importância...
TUTUBARÃO (1976-1978)
Outro clássico absoluto!!! Pegando carona no sucesso do
aterrorizante filme Tubarão, de Steven Spielberg, William Hanna e &
Joseph Barbera criaram “um peixão que tinha um enorme coração” e uma turma de
colegas roqueiros com um pé na disco
music (também, olha a época em que o desenho foi feito!).
O sorridente bicho também tocava
bateria na bandinha de seus amigos humanos. Dizem que a inspiração para os
trejeitos dele foi o Curly, dos Três
Patetas. Tutubarão juntava as
fórmulas do futurismo (a história se passava, acreditem, no fundo do mar no ano
de 2076), já utilizada em Os Jetsons
e Família Dó-Ré-Mi, com a do “grupo
de adolescentes com animal de estimação que fala”, consagrada em Scooby
Doo. O jargão “Não tem mais respeito!” (“I get no respect!”) , que Tutubarão vivia repetindo, foi copiado
do comediante Rodney Dangerfield. O
outro bordão do personagem (esse sim todo mundo lembra!) era “Nhac Nhac!”.
Donos
de um tino comercial só comparável ao de Walt
Disney, William Hanna e Joseph Barbera aproveitaram cada gotinha do sucesso
de suas criações, faturando com inúmeros produtos, como bonecos, camisetas, e
principalmente revistas em quadrinhos e para colorir (Eu tive! Eu tiveee!!!).
Vamos combinar: os caras eram gênios, criavam desenhos por encomenda para
diversos canais de TV dos EUA ao mesmo tempo (algo que hoje em dia seria
inadmissível) e seu trabalho tinha qualidade e inventividade – tanto é que
conseguiu resistir ao tempo. Gente genial, que ama o que faz, merece cada
centavo da fortuna que ganha. E no caso específico de William Hanna e Joseph
Barbera, eu ainda acho pouco.