Grand Hotel
Ano de produção: 1932
Direção: Edmund Goulding
Elenco: Joan Crawford, Greta Garbo, John Barrymore, Lionel
Barrymore.
Duração: 112 minutos
Preto & Branco
Gravadora: Warner-Folha
Escrever
sobre “Grande Hotel” exige coragem. Afinal, milhares de textos já
foram feitos sobre este filme, e por gente bem mais talentosa e estudada do que
eu. Porém, o objetivo deste blog não é produzir análises filosóficas profundas
ou geniais, e sim fazer o grande público perder o medo dos clássicos do cinema –
e a única forma é falar sobre eles de maneira acessível. Então, vamos lá. Há
muito o que dizer sobre esta jóia de 1932 (não confundir com o chatérrimo filme
de 1995, “Four Rooms”, que recebeu, sei lá por que, o mesmo título em
português). Mas vamos começar pela origem do roteiro. Ele foi baseado em um
best-seller meteórico de mesmo nome, lançado na Alemanha em 1929 e escrito por Vicki
Baum, uma ex-camareira de hotéis de luxo. O livro
foi adaptado para o teatro e fez um estrondoso sucesso, o que levou a MGM a comprar os direitos para
transformar a trama em uma superprodução. Vicki, aliás, é uma das autoras do
roteiro do filme. Em matéria de elenco, “Grande Hotel” reuniu o maior time
de craques já escalado por Hollywood para um mesmo filme até então. Greta Garbo, na época com 27 anos, não só era considerada a melhor atriz do seu tempo, mas era também a mulher mais
famosa do mundo, adorada nos quatro cantos do planeta pelo seu estilo único de
interpretação e suas grandes atuações em clássicos como “Anna Christie”. Já era,
inclusive, chamada de “A Divina” pela imprensa. A polêmica estrela Joan Crawford, aqui jovem, linda e em
início de sua fenomenal carreira. Os irmãos John e Lionel Barrymore (sim, eles são parentes de Drew Barrymore, respectivamente avô e
tio-avô dela), um consagrado como galã, o outro não tão bonito mas igualmente
talentoso (se não mais). O camaleônico ator Wallace Beery, ótimo como comediante e também pioneiro como
empresário. Para diretor, foi escalado o inglês Edmund Goulding, que já havia trabalhado com outros monstros
sagrados da época, como Bette Davis
e Tyrone Power. Coube a ele a árdua
missão de comandar um elenco top de linha (e muitas vezes difícil de lidar) em
uma produção cara, cuja trama, ambientada na Alemanha pré-Hitler, entrelaçava
as vidas de um grupo de personagens extremamente ricos e interessantes. Greta Garbo interpreta Grusinskaya, uma
bailarina russa deprimida e em fim de carreira, que não encontra mais motivos
para viver. John Barrymore é o charmoso
Barão Von Geigern, que vive um romance com ela. Joan Crawford dá show de atuação como Flaemmchen, uma secretária
moderna, independente e “avançadinha” para a época, que também se envolve com o
Barão, mas sofre o assédio do chefe, o ambicioso Preysing (Wallace Beery). Lionel
Barrymore, sensacional, é Otto Kringelein, o sujeito beberrão que se
descobre à beira da morte e resolve passar seus últimos dias de vida em uma farra
nababesca como hóspede do luxuoso hotel. Kringelein, aliás, trabalha na empresa
de Preysing. Há ainda outros personagens interessantes, como o Doutor
Otternschlag (Lewis Stone), na
opinião de quem o Grande Hotel é um local onde “as pessoas vem, as pessoas vão, e nunca acontece nada”. E nunca é
demais lembrar: é neste clássico que Greta
Garbo diz a frase que a tornou famosa: “I
want to be alone!”. “Grande Hotel” foi um fenômeno
cultural, estético e cinematográfico em sua época. A forma como as histórias se
misturam e se encaixam influenciou inúmeros profissionais das gerações seguintes,
inclusive – e principalmente – autores de novelas da TV. A fotografia explora a
arquitetura do hotel, tão rocambolesca e deslumbrante quanto o enredo, e que talvez
seja uma metáfora da confusão mental dos personagens. Os ângulos de câmera
também são interessantes, nos dão a impressão de que estamos espiando a vida daquela
gente. Trilha sonora impecável, principalmente a colagem de músicas da
abertura. Como eu disse, todo o elenco é, de fato, espetacular. Mas gente, o
que é Greta Garbo atuando? É algo
que simplesmente não pode ser descrito, tem que ser visto. Ela
tinha uma força em cena que era realmente fora do normal. Os gestos, o olhar, a
voz, tudo o que fez dela uma referência como atriz está aqui, na performance
dela neste filme. “Grande Hotel” tornou-se um estrondoso sucesso de bilheteria,
agradando tanto ao público quanto à crítica. E serve como referência até hoje para
inúmeros criadores, tanto do cinema quanto da televisão, e até da literatura. Não
é para menos. Envolve o público e captura sua atenção de um jeito especial, que
parece que o espectador está lá, junto com os personagens, vivendo tudo aquilo.
Enfim, sabe aquele papo de “filme-experiência”? “Grande Hotel” é exatamente
isso – embora tenha sido feito numa época em que a expressão ainda nem era
usada.
Curiosidades:
● “Grande Hotel” foi o único vencedor do Oscar de Melhor Filme a não receber indicação para nenhuma das
outras categorias de premiação do Oscar.
● O maravilhoso hotel onde o
filme foi gravado nunca existiu na vida real, infelizmente. Ele era cenográfico,
e foi montado dentro dos próprios estúdios da MGM, especialmente para a
superprodução. O responsável, o renomado cenógrafo Cedric Gibbons, utilizou um orçamento que nem era exagerado para a
época, mas conseguiu dar um realismo espantoso à sua criação.
● Como as personagens de Greta
Garbo e Joan Crawford não se
cruzam em cena alguma, as duas atrizes puderam gravar suas participações no
filme em dias separados – o que foi bom, pois elas não se davam bem na vida
real.
● Embora a trama se passe toda na Alemanha, o personagem de Wallace Beery é o único que fala com
sotaque germânico no filme.
● Assim como sua personagem, Greta
Garbo precisou vencer o medo do palco para se tornar artista – e mito.
EXTRAS DO DVD: Um banquete. Tem documentário sobre os bastidores,
trailers originais, cinejornal com reportagem sobre o lançamento do filme no Chinese Theatre, e uma curiosidade para
os mais nerds: o curta-metragem “Nothing Ever Happens”, que é uma
sátira ao filme. Uma vantagem abençoada é que todos os extras são legendados,
coisa rara até mesmo em extras de DVDs de supersucessos atuais.
Embalagem: A versão que eu tenho é a lançada pela Folha de São Paulo na Coleção Clássicos do Cinema. Acompanha um livro extremamente interessante sobre o filme, com textos e ilustrações de primeira qualidade. Uma outra versão, porém, saiu no Brasil, com embalagem simples. Eu não sei se o conteúdo é o mesmo da versão que eu tenho, mas quem puder comprar a edição especial da coleção da Folha sai ganhando.
Link do Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=fUhl5o8cJ5g
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